Tenho a impressão de que o mundo que hoje conhecemos gira num ritmo cuja rotação já não conseguimos acompanhar. As 24 horas de um dia são insuficientes para dar conta de tantos compromissos, tarefas, decisões, absorver o que nos interessa num fluxo infinito de informação e conteúdo. Existe alguém no planeta Terra que neste momento não saiba o que é o coronavírus (COVID-19)? Será esta uma nova versão da peste bubônica, que dizimou milhões na Idade Média, ou algo mais parecido com a SARS, que muito assustou o mundo no início deste século, mas logo conseguiu ser controlada? Trump pode ganhar as eleições nos EUA mais uma vez? Qual a próxima etapa da desastrosa política que Bolsonaro adotará no Brasil? E os salários em Portugal, quando estarão mais dignos, em comparação com seus convivias da União Europeia?

Ao ver os lances de Juventus 2-0 Inter de Milão, pela Série A italiana, num estádio vazio em Turim, devido às medidas do governo local para tentar controlar a epidemia do vírus que assombra o mundo atualmente, senti-me confuso. Os jogadores da Juventus pareciam não notar a falta de público, até Cristiano Ronaldo fez graça, ao descer do autocarro e cumprimentar adeptos imaginários à chegada ao Allianz Stadium. O futebol existe sem os adeptos? Acredito que pelo surto do vírus na Itália, o mais sensato seria a paralisação do campeonato, mas cada vez mais penso que sensatez é uma noção e um sentimento que está a desaparecer da nossa louca vida cotidiana.

O futebol, que acredito retratar a sociedade sob vários aspectos, passa por tempos confusos, tal e qual nossa realidade. Dirigentes com declarações estapafúrdias, jogadores sem qualquer compromisso, campeonatos insossos e modismos que passam como o vento. O tiki-taka de Guardiola parece fracassado, a força do futebol alemão se perdeu entre um Campeonato do Mundo e outro, o melhor jogador para a FIFA em 2018, o croata Modric, já não serve para o Real Madrid. E por falar em modismos, o Brasil aderiu aos mais variados perfis de ‘mister’, na esteira do sucesso de Jorge Jesus pelo Flamengo.

2020 começou com um forte sotaque português pelos relvados brasileiros. Pela falta de novos nomes e receosos em contratar técnicos desgastados do futebol local, os dirigentes brasileiros passaram a olhar para os treinadores portugueses como a salvação de seus clubes. De facto, hoje vários treinadores lusos estão espalhados pelos principais clubes de vários países europeus. Mas e no Brasil, daria certo? 

Jesualdo Ferreira era quem tinha a missão mais difícil. Fazer o Santos, endividado e sem contratar grandes nomes, seguir com a mesma intensidade da versão 2019, quando, comandado pelo enérgico argentino Jorge Sampaoli, chegou a fazer frente ao Flamengo de Jorge Jesus. O começo não foi animador, mas este Santos de Jesualdo, mais conservador nos padrões de jogo, está a fazer seu papel no Campeonato Paulista e na Taça Libertadores.

Já Augusto Inácio não resistiu nem a dois meses de trabalho com os catarinenses do Avaí. Foram somente sete jogos ao leme do clube de Florianópolis, com duas vitórias, um empate e quatro derrotas. A derrota para a Ferroviária, na primeira eliminatória da Copa do Brasil, decretou o fim da passagem do experiente português de 64 anos, que não deve ter guardado as melhores recordações dos bastidores do futebol brasileiro e seus dirigentes.

Outro luso que não teve vida fácil nestes primeiros meses do ano foi Luís Miguel Gouveia. Mas quem é este senhor? Trata-se de um globetrotter às avessas, o lisboeta de 48 anos que há 15 percorre os interiores do Brasil, em equipas sem qualquer dimensão nacional. A carreira como treinador de Luís Miguel Gouveia é exótica, mas com um começo convencional, com passagens por Arrantela e Atlético, das divisões distritais de Lisboa. Mas, então com 33 anos, Gouveia decidiu desbravar os mais profundos escalões do futebol brasileiro, e desde 2006, soma 25 clubes tupiniquins no currículo. Os mais recentes trabalhos foram no Cascavel, do Paraná, onde permaneceu por 23 dias em janeiro, demitido após dois jogos, e o Timon, do Piauí, cujo trabalho durou mais, 28 dias, e saiu após três jogos, esbravejando contra o amadorismo da direção do clube. 

Acredito que logo ‘mister’ Gouveia estará empregado novamente, e estarei atento aos novos passos do treinador. Gouveia talvez seja o maior conhecedor do futebol brasileiro contemporâneo, convivendo com as mais caóticas condições de trabalho, gestores inábeis e atletas amadores. Ele bem sabe o que são tempos difíceis no futebol, e certamente não desanimará com mais este percalço. Ao ‘mister’ Gouveia, melhor sorte nos próximos desafios!

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