O antigo presidente do Sporting Bruno de Carvalho foi ouvido esta sexta-feira na condição de arguido no julgamento da invasão à academia do clube, em Alcochete, que decorre no tribunal de Monsanto, em Lisboa.

Bruno de Carvalho começou por garantir que não teve qualquer informação prévia do que iria acontecer. "Não tive conhecimento. Não me vou alongar muito. É a primeira vez que me dirijo a tribunal. Não compreendo como estou aqui na qualidade de arguido", começou por afirmar o antigo presidente do Sporting.

"Um crime hediondo"

De seguida, Bruno de Carvalho classificou de vergonhoso tudo o que aconteceu em Alcochete "O que se passou em Alcochete foi um crime hediondo,  absolutamente lamentável. Ponto final. É indiscutível o que as pessoas passaram. Que nunca numa resposta minha se veja a minimização do que se passou!", frisou.

A juíza que conduz o processo questionou Bruno de Carvalho sobre o momento em que este teve conhecimento do ataque. "Estava em Alvalade, numa reunião. Quando soube, já tinha acontecido. Não tinha conhecimento de nada de nada", assegurou o ex-dirigente.

A relação de William Carvalho com as claques

Bruno de Carvalho abordou depois os acontecimentos da Madeira, em vésperas da invasão. "Preocupou-me logo na Madeira o facto de o cordão policial ter deixado passar as pessoas. Estamos a passar um atestado de minoridade à PSP da Madeira... Aliás, como eu. Se for condenado, sou o criminoso mais imbecil do Mundo. É lógico que alguém deixou passar estas pessoas. Que houve autorização", salientou.
O antigo presidente leonino chamou também a atenção para a relação próxima que alguns jogadores do plantel tinham com as claques. "William Carvalho quando saía à noite e se metia em problemas, o que era comum, a quem é que ligavam? A membros da claque. Havia um grande grau de intimidade entre estas pessoas. Nesta perspetiva, aquilo que se passou no aeroporto da Madeira era normal", revelou.

"Depois de eu dizer a Jesus que a Juve Leo não podia entrar na Academia, ele foi nas minhas costas e autorizou"

 Bruno de Carvalho contou, a seguir, que a certa altura chegou a proibir o acesso das claques a Alcochete e que viu essa decisão ser desautorizada por Jorge Jesus. "Em dezembro de 2017, depois de eu dizer a Jesus que a Juve Leo não podia entrar na Academia, ele foi nas minhas costas e autorizou. Que mensagem que passou? Tudo aconteceu à minha revelia e acabou por destruir o Sporting, as pessoas, o presidente e sua familia", frisou.

O telefonema de Fernando Mendes

O antigo presidente foi, de seguida, interrogado sobre as chamadas telefónicas que trocou com Fernando Mendes depois dos incidentes na Madeira. "Ele disse que tínhamos respeito um pelo outro, mas não gostávamos um do outro. Sempre tivemos uma relação de tolerância. Nunca me tinha telefonado. Quando me liga estava eu a tentar descansar com uma bebé ao lado. Eu não fui à Madeira porque tinha uma filha a morrer. Não conseguia falar com a pessoa que tinha criado problemas no aeroporto da Madeira e que aparentava estar muito embriagada", recordou.

Bruno de Carvalho conta que não deu muita importância ao telefonema, por ter achado que se tratava mais de problemas dentro da própria claque. "Fiquei com a ideia de que eram muito mais problemas internos da Juve Leo. Ele só falava do Mustafá, do Mustafá, da Juventude Leonina e não passava disso", lembrou.

"Eu não queria que ninguém fizesse nada"

Confrontado com reunião que teve com os jogadores depois do episódio no aeroporto da Madeira, Bruno de Carvalho garantiu que não viu grande preocupação no rosto dos jogadores. "Eu não queria que ninguém fizesse nada. Não podia haver excessos de lado nenhum. Perguntei ao Acuña o que se tinha passado e percebi nele, no Battaglia e no William que estavam muito despreocupados com a situação. Vi-os tão à vontade... Tenho a teoria da panela de pressão. Às vezes é só preciso tirar o pipo para esvaziar", afirmou.

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"O que lhes transmiti foi que tinham de ter cuidado. Disse: 'ouve lá... vais meter-te com um líder da claque. E o Acuña respondeu: 'sangue caliente!' O Battaglia também disse 'sangue caliente'. O William tem tudo menos 'sangue caliente'. E eu disse-lhes que se sentissem ameaçados nas suas casas ou no Sporting, para me ligarem a mim ou ao André Geraldes", assegurou.

Bruno de Carvalho negou, depois, perentoriamente ter dado instruções a Mustafá para fazer mal aos jogadores ou aos carros dos mesmos. "Absolutamente nada, nada", garantiu o antigo presidente do Sporting.

A reunião na 'casinha' da Juve Leo

De seguida falou-se da reunião do então presidente com a Juve Leo na sede da claque. "Eram pessoas aos gritos, não se percebia nada. Só ouvia 'o post, o post, o post, vamos por tarjas contra si'. Era gritos, umas pessoas a fumar charros, outras...Quiseram agredir-me. Eu queria era sair dali. Daí ter dito 'façam o que quiserem'. Sou o mandante terrorista mais imbecil do mundo, porque me queriam bater a mim", ironizou Bruno de Carvalho.

As medidas de segurança na academia e mais acusações a Jesus

No depoimento, seguiram-se perguntas sobre as medidas de segurança na Academia. "Durante cinco anos e meio tive de passar o cartão para entrar. Cheguei a questionar o Ricardo Gonçalves sobre as pessoas terem passado a porta sem passarem o cartão. Disse-me que tinha sido Jorge Jesus a pedir para retirarem essa medida de segurança. À minha revelia. O senhor Ricardo Gonçalves devia ter ido para a rua. Se não têm alterado as medidas de segurança por indicação do senhor Jorge Jesus tinha sido possível colocar os jogadores em segurança", garantiu Bruno de Carvalho.

O dirigente prosseguiu: "disseram aqui que ao disparar o alarme as portas abriam automaticamente. É mentira! Aquele alarme só servia para assustar, para fazer barulho! Não estava ligado a sistema nenhum,"explicou o ex-presidente leonino.

O jogo com o Benfica e a 'chuva' de tochas

Bruno de Carvalho também falou, no seu depoimento, sobre a 'chuva' de tochas para junto da baliza de Rui Patrício no Sporting-Benfica dessa época, poucas semanas antes da invasão à Academia. "Tinha morrido mais um adepto do Sporting, supostamente morto por adeptos do Benfica e quis falar com os responsáveis das quatro claques mais o Vasco Santos, chefe de segurança do estádio. Pedi que, em caso de vitória, fosse feita uma homenagem ao Marco Ficini. Foi só o que pedi!"

Bruno de Carvalho negou categoricamente que tenha dado ordem para o arremesso das tochas. "A única ordem que dei foi cobrar os 16 mil euros da multa à Juve Leo", garantiu.

A mudança da hora do treino

Sobre a alteração da hora do treino para a tarde, no dia da invasão, Bruno de Carvalho assegurou que nao teve nada a ver com a mudança, e que esta foi da responsabilidade de Jorge Jesus. "Não sugeri nada, nem sequer tinha de o fazer. O Jesus disse que não queria ser humilhado em Alcochete e só estava preocupado se estava despedido. Eu disse que não. Teve de ser convencido pelo Raul José e pelo Mário Monteiro, porque já não me ouvia", recordou.

"Se ele fosse embora logo ia receber uma nota de culpa com suspensão imediata. Não foi fácil explicar-lhe isto e ele não percebia nada. Foi o Raúl José que lhe explicou, porque falava com ele em amadorense. Ele perguntou quando é que eu ia fazer o papelinho, eu disse que ia reunir com a equipa jurídica de manhã e ele entendeu que, se de manhã se fazia o papel, o treino passava para a tarde. Foi das decisões mais acertadas que vi Jorge Jesus tomar em três anos e meio", ironizou o ex-presidente 'verde e branco'.

"Jorge Jesus e o Frederico Varandas iam ser despedidos, mas o único despedido fui eu"

Durante o seu Bruno de Carvalho confirmou que ia despedir Frederico Varandas: "As duas pessoas que iam ser despedidas foi Jesus, que acabou condecorado, e Varandas, que acabou presidente. E o despedido fui eu", diz Bruno de Carvalho.

O ex-dirigente terminou o seu depoimento apontando o dedo a duas testemunhas do caso. "Estiveram aqui sentados dois casuais como testemunhas: Pedro Silveira ['Barbini'] e Gonçalo Amaral. A procuradora Cândida Vilar diz que os 'casuals' são a pior coisa do mundo. Eles estiveram aqui como testemunhas e eu estou aqui como arguido", lamentou.

Terminado o seu depoimento, Bruno de Carvalho foi dispensado pela juíza e, na sala, ouviram-se palmas parte parte de alguns dos presentes no tribunal de Monsanto, o que levou a polícia a evacuar a sala.

As alegações finais do julgamento ficaram agendadas para o dia 11 março.

*Notícia atualizada

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