Poucos imaginariam que um jovem franzino, que driblava quem estava a sua frente nas quadras de futsal de São Vicente, pequeno município na região metropolitana de Santos, litoral do estado de São Paulo, alcançaria o status de futebolista mais caro de sempre, menos de uma década como atleta profissional. Descoberto nos acanhados recintos desportivos por Zito, antigo médio do Santos e da Seleção brasileira, Neymar ingressou nas camadas jovens do histórico clube paulista aos 11 anos. Tendo um início muito parecido a tantos foras de série que despontaram no futebol brasileiro, vindo do futsal, onde dera os primeiros dribles, Neymar debutou nos seniors aos 17 anos.

Hoje, aos 26, muito coisa mudou na vida do avançado de 1,75m de altura, que parece carregar o peso da esperança um país, além do estigma de atleta mais caro do desporto-rei.

Após gerações e mais gerações de atletas que encantaram o mundo, a fábrica brasileira de futebolistas talentosos parecia ter diminuído o ritmo de produção no fim da última década. Kaká, eleito o melhor do mundo em 2007, o último antes da dinastia de Cristiano Ronaldo e Messi, parecia ser o canto do cisne de um país acostumado à fartura de excelentes jogadores em sua seleção nacional. Ronaldinho Gaúcho, num precoce declínio, Adriano, perdido entre tantos problemas pessoais, e Robinho, constantemente em sarilhos no Manchester City após a saída do Real Madrid, angustiavam os brasileiros, que passaram a ver sua Seleção sem o mesmo brilho de outrora.

Neymar e seu companheiro de Santos, Paulo Henrique ‘Ganso’ foram gratas surpresas que pareceram renovar as esperanças por novos gênios com ADN canarinho. Porém Ganso, médio de excelente técnica, toques refinados, mas inconstante ao longo da carreira, foi ao longo dos últimos anos perdendo espaço nos clubes por onde jogou, e atualmente encontra-se esquecido no Sevilha e a procura de um retorno ao futebol brasileiro. A Seleção passou a ser Neymar e os demais. E foi evidente a dependência de um único talento numa equipa acostumada à fartura nas meias de final do último Campeonato do Mundo, na hecatombe que foi para o futebol brasileiro a derrota por 1-7 à Alemanha.

Neymar foi a principal figura de um Santos que acumulava títulos, transferindo-se de forma obscura para o Barcelona de Messi, em que sua função não era ser o protagonista, mas ajudar o protagonista. Triunfou em Camp Nou, mas a vontade de voltar a ser o centro das atenções o fez mudar de ares, e em nova controvérsia na carreira, transferiu-se a peso de ouro para o Paris Saint Germain, controlado e financiado pelo petróleo catari. Os 222 milhões de euros pagos pelo PSG ao Barcelona, valor recorde no futebol mundial, colocaram Neymar ainda mais em evidência, e também pressão sobre sua figura, como o futebolista mais caro de sempre.

Os pouco atraentes jogos da liga francesa e o fracasso parisiense em mais uma eliminação na Liga dos Campeões, culminando numa fissura no tornozelo que o tirou de ação por mais de dois meses, fizeram com que Neymar carregasse ainda mais peso para seus ombros e chegasse ao Mundial da Rússia com a pressão de ser a figura máxima do grande evento do futebol. Após os particulares de preparação frente à Croácia e Áustria, em que atuou bem e marcou dos seus golos, a estreia da Seleção no Campeonato do Mundo frente aos suíços gerou grande expectativa, mas o facto é que o Brasil não foi bem, e Neymar, duramente marcado por Behrami, passou em branco, e salvo o excelente golo de Coutinho, os brasileiros teriam ainda mais queixas da estreia do ‘escrete’ na Rússia.

Neymar parece sentir a pressão de ter de brilhar de forma intensa para tentar ofuscar Cristiano Ronaldo e Messi, e que, enfim, alcançar seu grande objetivo, o título de melhor jogador do planeta. Com dores, é dúvida para o jogo contra Costa Rica, nesta sexta-feira. Sobre seu futuro, muito especula-se sobre nova, e polémica, mudança, desta vez para o Real Madrid. Neymar não é mais um jovem promissor, e sim um dos principais astros do futebol. Sua individualidade e comportamento por vezes explosivo dentro de campo, aspectos apaixonadamente discutidos entre os brasileiros, parecem refletir uma pressão interna para ser o melhor na grande montra do futebol. Os próximos dias vão ser de intensa pressão sobre o camisola 10 canarinho. Neymar precisa ser o jogador referência para o Brasil, e a Seleção e os brasileiros depositam nele as fichas para um triunfo no Estádio Luzhniki, em 15 de julho.

* Yuri Bobeck é jornalista, com passagens por rádio UEL FM, jornal Lance!, TV Cultura e TV Globo. Escreve para o SAPO neste Mundial’2018.

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