“Tu querias perceber os pássaros / Voar como o Jardel sobre os centrais / Saber por que dão seda os casulos / Mas isso já eram sonhos a mais”. Os versos escritos por Carlos Tê na música “Não me mintas”, de Rui Veloso, são a melhor prova da dimensão atingida por Mário Jardel em Portugal. Um fenómeno no futebol que marcou a sociedade portuguesa entre 1996 e 2003.

Natural de Fortaleza, onde nasceu a 18 de setembro 1973, começou a dar os primeiros pontapés no modesto Ferroviário. Aqui cresceu até se tornar o avançado alto (1,88m) e possante que despertou a atenção do Vasco da Gama. Sem deixar grande marca no clube de raízes lusitanas, adiou a explosão para o Grémio de Porto Alegre, onde pela mão de Luiz Felipe Scolari se tornou um goleador temível.

O Benfica namorou-o, chegou a estar alegadamente de malas feitas, mas quem o recebeu em solo nacional foi o FC Porto no verão de 1996. Num clube que tinha Domingos como a estrela do ataque, havia dúvidas sobre o espaço do brasileiro na equipa comandada por António Oliveira. Foi preciso esperar pela visita a San Siro, onde uma histórica vitória por 3-2 sobre o AC Milan e um surpreendente ‘bis’ abriu-lhe as portas da titularidade. Mário Jardel de Almeida Ribeiro era agora uma estrela.

Com vários parceiros de luxo, como Drulovic, Zahovic, Edmilson, Capucho ou Sérgio Conceição, o popular Super-Mário arrasava defesas e fazia do jogo aéreo uma arma nunca antes tão temida em Portugal. Sucederam-se os campeonatos, as taças e os muitos golos com a camisola azul e branca. Rei na Invicta durante esse período, foi também o rei dos melhores marcadores nacionais entre 1996 e 2000 e atingiu mesmo o trono europeu em 1999. Uma façanha que viria a repetir mais tarde.

Após quatro anos de um desmesurado sucesso no FC Porto, Jardel rende-se aos milhões do Galatasaray, onde ajuda a conquistar uma Supertaça Europeia em 2000/01. Porém, as saudades de Portugal falaram mais alto e o Super-Mário quis voltar ao país onde tinha sido mais feliz. Desta feita não foi o FC Porto, mas sim o Sporting a recebê-lo. Curiosamente, uma vez mais o Benfica ficava a ver Jardel escapar-se-lhe por entre os dedos, numa fase em que o seu nome chegara a ser promessa eleitoral no clube da Luz.

Em Alvalade ficou apenas dois anos, mas foi o tempo suficiente para voltar a brilhar e para mostrar uma outra faceta até então desconhecida e que expôs o seu lado mais sombrio. Se a primeira época de 2001/02 coincidiu com uma colaboração mágica com João Vieira Pinto e um novo recorde pessoal de 42 golos, que lhe valeu a segunda Bota de Ouro europeia, a segunda marcou a descida ao inferno.

Os demónios de Mário ofuscaram o brilho de Jardel. Onde antes se falava dos golos agora o tema de conversa eram os vícios do avançado. Com apenas 29 anos, o prolífico avançado que escrevera uma das páginas mais brilhantes assinadas por um jogador estrangeiro em Portugal afastava-se do caminho dos golos. Não de forma definitiva, pois saltitou por mais de uma dezena de clubes entre 2003 e 2011, mas de forma irremediável. Esse já não era o Super-Mário. Era apenas o cidadão Mário Jardel a tentar imitar o inesquecível goleador que outrora brilhara no FC Porto e no Sporting e que merecera um verso nas canções de Carlos Tê e Rui Veloso.

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