Miguel Garcia tinha a "certeza absoluta" que o Sporting ia segurar a vitória sobre o CSKA Moscovo e, ao intervalo, só pensava onde ia festejar a conquista da Taça UEFA de futebol, confessou o ex-jogador à Lusa.

Miguel Garcia foi titular nessa final no Estádio José Alvalade, em 18 de maio de 2005, a última com aquela designação, precedendo a atual Liga Europa, e de péssima memória para os ‘leões', já que, após terem estado a vencer, acabaram derrotados por 3-1, desperdiçando assim a oportunidade de conquistarem, em casa, o segundo título europeu da sua história, após a Taça das Taças, em 1964.

"Entrámos no jogo com uma força e motivação fabulosas, até ao intervalo era impensável dizer que íamos perder aquele jogo. Quando fui para o intervalo, deitei-me com as pernas para o ar no balneário e pensei ‘a ganharmos 1-0, a darmos uma lição de futebol, de certeza absoluta que vamos ganhar' e já estava a pensar ‘onde é que eu vou esta noite festejar este título?'", contou o antigo lateral-direito à Lusa.

O golo do médio brasileiro Rogério na primeira parte levou adeptos e equipa a acreditarem, mas os russos deram a volta no segundo tempo com três golos em menos de 20 minutos.

"Como éramos uma equipa muito ofensiva, que gostava muito de ter a bola, com jogadores muito para a frente, muitas vezes com os dois laterais subidos, não soubemos gerir o 1-0 e ser mais cautelosos, mas durante a época inteira era assim que jogávamos, a nossa identidade não era recuar no terreno depois de marcarmos para gerir a vantagem e não seria naquele jogo que ia ser", disse.

A esta distância, Miguel Garcia considera que o Sporting também sentiu "a pressão de jogar em casa", mas devia ter "sido mais cauteloso, estar melhor taticamente e recuar um pouco”. “Mas dentro do jogo, de uma final, não se consegue. Ou isso se trabalha durante meses ou não é naquele jogo que se vai meter essa ideia", acrescentou.

Sobre uma eventual influência negativa da derrota com o Benfica (1-0) quatro dias antes, para o campeonato, que ‘transferiu' em definitivo a liderança para a Luz a uma jornada do fim, afirmou que, "conscientemente", não a sentiu.

"Cada jogo é um jogo, ali era uma final, um título que o Sporting nunca tinha ganho, dois dias depois já ninguém pensava nesse jogo com o Benfica. Estávamos super motivados. Depois do empate [do CSKA], só me veio à cabeça a vontade de fazermos tudo para voltar a marcar. Quando sofremos novo golo, aí fomos um pouco abaixo, quisemos voltar a fazer tudo rápido, mas rápido não quer dizer bem feito", notou.

Assumido sportinguista, aquele que tinha sido o herói da eliminatória anterior, diante dos holandeses do AZ Alkmaar, ao marcar em cima do final do prolongamento o golo que permitiu ao Sporting a qualificação para a final, não tem dúvidas sobre a amargura do desaire.

"Foi a derrota que me custou mais na minha carreira, sem dúvida alguma, por ser uma final, por ser no nosso estádio e por ser o clube do meu coração, conjugaram-se todos os fatores. Foi uma derrota que ficou marcada e que me custou a digerir durante algum tempo", contou.

Ainda assim, Miguel Garcia considera que "as pessoas não se esquecem dessa equipa porque, apesar de não ter ganho nada, lutou até ao fim pelas duas competições mais importantes, com exceção da Liga dos Campeões, e a jogar um bom futebol, com uma equipa ofensiva, que tinha um plantel cheio de craques".

"Hoje em dia, infelizmente, não se consegue ver isso, o Sporting depende, nos últimos tempos, de dois, três, quatro jogadores. Naquele ano, não. Saía o Pedro Barbosa, entrava o Carlos Martins, saía o Liedson e entrava o Niculae, havia o Custódio ou o Hugo Viana, saía o Rui Jorge e tinha o Tello, tinha o Rochemback, o Polga, o Enakarhire, havia muitas soluções e o ‘mister' Peseiro fez um trabalho fantástico a gerir o plantel", disse.

Miguel Garcia lamenta que tenha terminado "com sabor amargo" uma época em que o Sporting podia ter "ganho tudo".

"Morremos na praia, mas chegámos ao fim com o sentido de dever cumprido, demos tudo, jogámos bem e trabalhámos nos limites", concluiu o ex-atleta.

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