O Real Madrid venceu esta quarta-feira o Ajax, por 2-1, em encontro da primeira-mão dos oitavos-de-final da Liga dos Campeões. O jogo ficou marcado pela primeira decisão revertida por um árbitro na Liga dos Campeões de futebol, após visionar as imagens por indicação do videoárbitro.

Aos 37 minutos do jogo da primeira mão dos oitavos de final da Liga dos Campeões, o argentino Nicolas Tagliafico introduziu a bola de cabeça na baliza do Real Madrid, após uma má intervenção do guarda-redes Thibaut Courtois.

Alertado pelo videoárbitro, o árbitro esloveno Damir Skomina considerou o sérvio Dusan Tadic, em posição irregular no momento do remate de Tagliafico, importunou Courtois, anulando o golo, que seria, na altura, o 1-0 para os holandeses.

O SAPO Desporto falou com Marco Ferreira, que deixou a arbitragem no final da época de 2014/2015, para que este analisasse o lance que está a gerar polémica.

O antigo árbitro considera que o golo do argentino Nicolas Tagliafico foi "bem anulado". "Após o cabeceamento, o jogador do Ajax tem um colega em frente ao guarda-redes na pequena área. Ou seja, é muito similar ao golo anulado ao Feirense frente ao Sporting, que aconteceu num pontapé de canto. Não há fora de jogo nessa situação visto que nos cantos não há permissão para foras de jogo, mas um jogador que esteja dentro da pequena área e que impeça os movimentos do guarda-redes está a cometer uma infração", afirmou.

"Neste caso, é uma jogada em que o guarda-redes tenta intercetar a bola e no seu caminho encontra, dentro da pequena área, um adversário que toma parte ativa no jogo e que influencia a sua ação. Portanto o golo foi bem anulado, o videoárbitro esteve muito bem ao alertar o árbitro, e o árbitro depois de ver as imagens tomou uma boa decisão", referiu ainda Marco Ferreira.

O mesmo ocorreu no jogo do passado domingo entre Feirense e Sporting. Aos 27 minutos, o Feirense festejou golo de Marco Soares mas, segundos depois, alertado pelo videoárbitro Bruno Esteves, o árbitro Manuel Mota anulou o golo, após visualizar as imagens no monitor. No entanto, neste caso não ficou clara a razão que levou ao anulamento do golo.

Logo após o apito final no encontro entre Ajax e Real Madrid, a UEFA reagiu na conta oficial do Twitter da Liga dos Campeões à polémica que na altura já se gerava e explicou o golo anulado.

"Aos 38 minutos da primeira mão do Ajax - Real Madrid, o tento de Nicolás Tagliafico foi anulado após uma revisão do VAR. O árbitro identificou que o companheiro de equipa de Tagliafico, Dušan Tadić, estava em posição de impedimento e a interferir com o guarda-redes - impedindo-o de jogar ou de chegar à bola - quando o cabeceamento foi feito", explica a UEFA.

O VAR na Liga dos Campeões e na Liga

Tanto em Portugal como a nível europeu, existem ainda algumas dúvidas e bastante desconfiança em relação à tecnologia do videoárbitro. No entanto, Marco Ferreira explica que essas questões são injustificadas. "Os responsáveis da UEFA têm confiança nesta ferramenta, se não tivessem não a tinham já introduzido nas suas competições a nível europeu", refere.

Já ao nível do campeonato nacional, o antigo árbitro relembra que por enquanto a ferramenta ainda está em período de experimentação e que os erros são normais.

"Nesta fase é lógico que tudo é um teste, apesar de já ter influencia direta no nosso campeonato, mas continua a ser um teste. Os clubes aceitaram isso, sabendo que havia alguns lapsos e ajustes que iam ser feitos ao longo das jornadas e à medida que ocorrem certas situações", recorda.

"Na Liga dos Campeões, sendo a competição mais importante na Europa, a introdução do videoárbitro e estas decisões bem tomadas pela equipa de arbitragem só vêm assegurar que é uma ferramenta que veio para ficar e que é uma mais valia desde que seja bem utilizada", acrescenta Marco Ferreira.

No entanto, o antigo árbitro chama ainda a atenção para o facto de o videoárbitro não ser uma ferramenta totalmente independente. "Não se pode banalizar o VAR porque é uma ferramenta, o VAR não é uma tecnologia que toma decisões sem dúvidas, isso é a tecnologia da linha de golo, que não precisa de interpretação, mas o VAR precisa", começa por dizer, acrescentando de seguida que "o VAR tem de ter sempre uma interpretação de um árbitro e muitas vezes as pessoas confundem o que é a ferramenta com a má interpretação que um árbitro fez, então culpam a ferramenta quando a responsabilidade é de quem fez uma interpretação incorreta."

Por fim, Marco Ferreira faz um apelo aos adeptos. "É necessário que as pessoas deixem de criticar o VAR sempre que existe uma dúvida contra a sua equipa. Os adeptos têm de perceber que não podem usar a ferramenta para fazer uma crítica quando esta não tem de ser utilizada em situações de dúvida, apenas em situações concretas", relembra.

Recorde o que é o videoárbitro, para que serve, quando deve intervir e as regras do mesmo.

O que é o videoárbitro ou VAR?

É um sistema de comunicação entre o árbitro de campo e os árbitros a cargo das imagens em direto. O sistema está instalado numa ‘régie' (uma sala de 35 metros, com vários ecrãs, cada um deles com imagens em direto e em bruto de cada uma das câmaras que serão utilizadas na transmissão televisiva do encontro) e permite aceder a todos os ângulos de câmara disponíveis no estádio. Nas primeiras jornadas, existe a possibilidade de a FPF precisar de um centro móvel (uma carrinha no exterior do estádio) em alguns recintos, mas a ideia é que, com o avançar da competição, seja a Cidade do Futebol o centro tecnológico de apoio a todos os jogos.

Quando deve intervir?

O videoárbitro poderá ser utilizado em quatro situações de jogo: golos, penáltis, cartões vermelhos diretos e identidades trocadas.

Golos: Neste caso, o papel do vídeo-árbitro passa por ajudar o juiz a determinar se houve ou não infração que determine a anulação da jogada. Pode aplicar-se a faltas ou a foras de jogo que não tenham sido sancionados.

Penáltis: O VAR deve assegurar que não existem decisões erradas na marcação de grandes penalidades. Em caso de dúvida, o árbitro pode pedir a análise da jogada a quem está a acompanhar o jogo nas televisões ou verificar ele mesmo as imagens para tomar a melhor decisão.

Expulsões: O papel do vídeo-árbitro é assegurar que o árbitro de uma partida não erra quando toma a decisão de expulsar ou não determinado jogador, através do recurso às imagens televisivas.

Troca de identidade: No caso de o árbitro se enganar na atribuição de um amarelo ou vermelho, trocando a identidade do infrator ou mesmo tendo dúvidas sobre que atleta cometeu a infração, deverá ser avisado pelo vídeoárbitro a fim de corrigir a situação.

A comunicação entre o videoárbitro e o árbitro de campo

Quando algum incidente se enquadra nas quatro situações contempladas pelo sistema, o árbitro pede ajuda ou o vídeoárbitro indica que há um incidente que deve ser revisto. O árbitro de campo é aconselhado depois a consultar as imagens.

Na sequência do conselho do vídeo-árbitro, o árbitro de campo pode parar a partida para, fora das linhas do jogo, rever o lance e tomar a medida apropriada ou "aceitar o conselho e agir de acordo com essa informação.

O videoárbitro só vai dar o seu parecer de alteração à decisão inicial do árbitro caso a mesma esteja completamente errada.

As regras do videoárbitro

  1. O recurso ao videoárbitro só para corrigir erros claros ou situações decisivas que tenham passado despercebidas à equipa de arbitragem
  2. Independentemente do conselho do videoárbitro, a decisão final será sempre tomada pelo árbitro principal.
  3. A função do videoárbitro é a de aconselhar o árbitro principal e não a de tomar decisões.
  4. Não existe tempo máximo para rever imagens de um incidente. O rigor é mais importante do que a rapidez, indica o International Board.
  5. Um jogador que faça um "sinal de revisão" será disciplinado com um cartão amarelo.
  6. Jogadores e equipas técnicas não podem rodear o árbitro principal para influenciar revisão das imagens de um incidente ou contestar.

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