Quando há pouco mais de três meses Jorge Jesus era anunciado como novo treinador do Flamengo, muito se falou e muito se escreveu sobre quais seriam as chances de sucesso do genioso e extrovertido ‘mister’, que havia rescindido meses antes com os árabes do Al Hilal, no que era a primeira aventura fora do Portugal do técnico nascido na Amadora. O futebol brasileiro, muitas vezes avesso a novas ideias e principalmente a pessoas de outras culturas, não mostrou-se receptivo ao treinador português, que logo nos primeiros jogos teve de superar uma frustrante eliminação para o Athletico Paranaense nos quartos de final da Copa do Brasil e uma desastrosa derrota para o Emelec, no Equador, que quase custava a classificação para a fase seguinte da Taça Libertadores. Jesus estava a ser posto à prova, e muitos acharam que a aventura brasileira do treinador português terminaria a qualquer momento.

Convicto em seus ideais e a receber reforços de peso como Filipe Luís, lateral que por anos foi titular da sólida defesa do Atlético de Madrid, o Flamengo de Jesus ganhou corpo e alma, e as exibições a cada jogo tornaram-se mais vistosas e diferenciadas das demais equipas deste Brasileirão’2019. E na ronda que encerrou a primeira volta do campeonato, um aguardado duelo entre líder e vice-líder, Flamengo versus Santos, Jorge Jesus frente a outro estrangeiro, também de nome Jorge, e não menos polémico, o argentino Sampaoli. Um jogo à altura do Maracanã, presenciado por mais de 65 mil adeptos, cada vez mais admiradores do português de fartos cabelos grisalhos e gestos energéticos à beira do relvado.

Em um jogo marcado por táticas opostas, o Flamengo e seu letal trio ofensivo, formado por Bruno Henrique, Gabriel e Everton Ribeiro, muito atacava um Santos que apostava na formação com três centrais e um camisola 10 livre para driblar e criar oportunidades. O baixinho venezuelano Yeferson Soteldo, aposta de Sampaoli para esta temporada, parecia ter fôlego infinito, e driblava quase todos à sua frente, sendo o elemento mais perigoso para a defesa rubro-negra. O Flamengo explorava os espaços no meio-campo, até que ao minuto 44, um lance de génio, para ser aplaudido de pé no mítico estádio. Gabriel recebeu passe no lado direito, driblou com classe o defesa a sua frente e com um remate brilhante, encobriu o guarda-redes Everson. Um misto de incredulidade e êxtase espalhava-se pelas bancadas. Um soberbo golo que evidencia a maturidade técnica do avançado que deixou má impressão no Inter de Milão e Benfica. Golo de número 16, isto em 19 jornadas, para Gabriel, melhor marcador deste Brasileirão.

Ao intervalo, uma picardia entre Jesus e o lateral adversário, Jorge, outro que não deixou saudades no futebol português, ao serviço do FC Porto. O treinador dirigiu-se ao jogador com dois tapas no rosto, que não pareceram agressivos, mas o defesa não gostou nenhum pouco do brusco afago. Na segunda parte, mais do mesmo, com Soteldo a infernizar a defesa do Flamengo e, do outro lado, Bruno Henrique quase ia marcando outra obra de arte, após excelente drible na linha de fundo, mas o remate saiu à figura do guarda-redes santista. A pressão do Santos não surtiu efeitos, e o Flamengo venceu mais uma no campeonato, terminando a primeira volta na liderança e com o simbólico título de campeão de inverno. Para o Santos, a derrota custou também a queda na tabela de classificação, descendo para o terceiro posto. O novo vice-líder do Brasileirão é o Palmeiras, já sem Scolari ao comando, que venceu o Cruzeiro por 1-0, num jogo pobre de ideias e de espetáculo, com o golo solitário do médio Bruno Henrique. Flamengo e Palmeiras estão separados agora por três pontos, e devem seguir um a caça do outro pela segunda volta, na luta pelo título, com o Santos, a grata surpresa deste Brasilerão, a tentar não distanciar-se do topo.

Os mais de 65 mil que testemunharam a vitória do Flamengo frente ao Santos têm uma certeza: Jorge Jesus mudou o ânimo e mexeu com o brio de uma equipa que anseia por grandes títulos e momentos para mais tarde recordar. Há quem diga que este Flamengo de Jesus é o melhor desde a fabulosa geração de Zico nos idos anos 1980. E para que esta tese seja confirmada, há que ser campeão, do Brasil, da América e do mundo, como foram lá atrás os talentosos rubro-negros, que deixaram uma saudade sem fim na imensa massa de adeptos do Flamengo.

*Texto escrito em português do Brasil

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