A revolução no mundo das transmissões televisivas de desporto está aí à porta e tem ‘dedo’ português. A Mycujoo, empresa fundada por dois empresários portugueses, promete liderar o mundo do 'live streaming' desportivo nos próximos anos. Considerada por um painel formado pela Google, Financial Times e Conselho da Europa, como uma das 100 empresas de base tecnológica mais importantes da Europa e uma das 20 mais inovadoras em 2018, a Mycujoo está a democratizar o mundo das transmissões desportivas.

É no Mycujoo que os pequenos emblemas e as federações menos cotadas estão a transmitir os seus jogos e a chegar a milhões de espetadores via 'streaming'. Mas outros gigantes como a Confederação Brasileira de Futebol já firmaram acordos com a 'startup' portuguesa para a transmissão dos jogos das suas equipas.

A plataforma, fundada pelos irmãos Pedro e João Presa, tem tido um crescimento exponencial, desde que foi lançada em 2014. No início de 2015 só contavam com três clubes, mas fecharam o ano com 30 emblemas e 90 jogos em direto. Em 2018, a empresa terminou o ano com mais de 75 milhões de utilizadores e 12 mil jogos transmitidos. Neste momento, a tecnológica com sede na Holanda transmite jogos de seis confederações mundiais de futebol: UEFA (Europa), CAF (África), CONCAF (América do Norte, Central e Caraíbas), CONMEBOL (América do Sul), AFC (Ásia) e OFC (Oceânia), além de se ter expandido para outras modalidades, com um acordo firmado com a Federação Internacional de Hóquei em Campo (FIH) para a transmissão em direto dos seus jogos.

Em Portugal, mais de 100 clubes já transmitem os seus jogos no Mycujoo, como o SC Braga, o CD o Nacional, o GS Carcavelos, o CD Olivais e Moscavide, o FC Alverca, o GD Vilar de Perdizes, o SC Maria da Fonte, entre muitos outros.

Mycujoo: o 'filho' de uma paixão ao clube das 'camisolas esquisitas'

A queda do Boavista para os campeonatos distritais da Associação de Futebol do Porto em 2009 deu o mote para o nascimento do MyCujoo. Pedro Presa, adepto confesso da equipa das 'camisolas esquisitas' (como o Boavista ficou conhecido na Europa), deixou de poder ver os jogos do seu clube quando este caiu em desgraça. Da experiência acumulada pelas entidades onde trabalhou, como a Associação para as Ligas Europeias de Futebol, as Ligas Francesa e Espanhola, e depois de terminar o mestrado no FIFA Masters, este antigo aluno do curso de Comunicação Social e Cultura da Universidade Católica deu conta que havia um mercado enorme por explorar.

"Entendi que não era só o Boavista, eram cerca de 95 por cento da pirâmide de todo o futebol ou mais que não pertence às ligas profissionais. O volume de jogos e jogadores inscritos nestas federações criava uma economia massiva, baseada em 'nanocommunities', uma rede de comunidades nano, que estão espalhadas pelo mundo, com uma paixão e uma lealdade brutal. O número de pessoas que jogam numa base semiprofissional ou amadora é muito superior à dos profissionais, e acreditamos que o nível de paixão que as pessoas destas comunidades têm para com estes clubes é muito superior à de um fã que segue o Real Madrid no Nepal ou na China, por exemplo. Foi nessa base que criámos o Mycujoo, numa perceção também de negócio, baseada em toda a experiência que eu tinha na altura. Estamos a tentar criar a maior rede de comunidade de futebol do Mundo, baseado no futebol semiprofessional e amador", conta Pedro Presa, CEO e cofundador da empresa, em entrevista ao SAPO Desporto.

"Estamos a tentar criar a maior rede de comunidade de futebol do Mundo"

Da ideia, surgida em 2009, à prática em 2014, ano da criação do Mycujoo, foi um longo caminho. Pedro Presa e o irmão João tiveram de desbravar caminho para tentar convencer os clubes da utilidade de um produto de ‘livestreaming’, numa altura em que era difícil explicar às pessoas o conceito de transmissão em direto para o computador ou telemóvel. Aproveitou os contactos acumulados ao longo dos anos e foi bater à porta do Zurique FC. A equipa de futebol feminino do clube foi a cobaia para o Mycujoo. Bastava convencer outros emblemas.

“Saí da ‘One FM’, a rádio onde trabalhava na Suíça, o meu irmão João deixou o trabalho que tinha na Noruega para se dedicar 100 por cento ao Mycujoo. Pegámos no carro e fomos bater à porta dos clubes. Falámos até com o Benfica de Zurique, mas eles disseram-nos que não estavam interessados porque íamos tirar pessoas do estádio. Fomos com a 'casa às costas' bater em todos as portas. Mas várias vezes eles fechavam-nas na nossa cara, nós ligávamos e nada", conta.

Os irmãos João e Pedro Presa, fundadores do Mycujoo
Os irmãos João e Pedro Presa, fundadores do Mycujoo créditos: Mycujoo

As dificuldades sentidas na Suíça foram as mesmas que encontraram quando tentaram vender o conceito em Portugal. Havia o medo de se perder espetadores nos estádios. No início, "as pessoas não tinham ideia de que era possível transmitir os conteúdos por telefone ou por 4G, diziam que ia ter um custo alto, que ia tirar pessoas do estádio".

Foram tempos difíceis. Mas o Mycujoo foi crescendo. O primeiro contrato coletivo foi firmado com a Federação Suíça de Futebol, para transmissões da terceira e quarta divisões. Seguiu-se outro com a Federação dinamarquesa para jogos da primeira divisão da Liga Feminina. Hoje em dia, a empresa trabalha com mais de 120 federações e clubes a nível global.

"Pegámos no carro e fomos bater à porta dos clubes. Falámos até com o Benfica de Zurique, mas eles disseram-nos que não estavam interessados porque íamos tirar pessoas do estádio"

Mas as 'dores de crescimento' não paravam. Quando as plataformas como o Facebook e o Youtube lançaram os seus serviços de ‘livestreaming’, o Mycujoo teve de enfrentar outro problema: explicar às pessoas o porquê de a plataforma ser melhor que a das redes sociais.

"Oferecemos proteção dos conteúdos, controlo sobre os dados dos utilizadores, algo que não acontece no Youtube ou Facebook. Mas depois de muito trabalho e muita educação, conseguimos finamente explicar às pessoas essa diferença e marcar a nossa presença no mercado", explica Pedro Presa, antes de apontar outra diferença: a qualidade dos utilizadores.

"Dou um exemplo: a Federação Paulista de Futebol, no Brasil, trabalha com alguns conteúdos no Facebook e alguns no Mycujoo. Se tiverem, por exemplo, 100 mil pessoas a assistirem a uma competição no Facebook, o tempo de permanência dessas pessoas é de cinco segundos. No Mycujoo podem ter 20 mil pessoas a ver, mas cada um passa, em média, três minutos. Com estes números começamos a mostrar aos detentores de conteúdos o valor que tinham em transmitir connosco e não com essas plataformas. Nós oferecemos resumos dos jogos, chats durante a partida. O Facebook não é uma plataforma para ver o futebol", declara.

Por detrás do Mycujoo está a ideia de democratizar as transmissões desportivas. Qualquer emblema poderá colocar os seus conteúdos nos quatro cantos do Mundo, ao mais baixo custo, com uma tecnologia simples e fácil de usar. Com sede em Amesterdão, Holanda, escritórios em Zurique, Lisboa e Singapura, e representações em São Paulo, Rio de Janeiro e Boston, esta ‘startup’ portuguesa quer tornar-se no maior mercado de desporto do Mundo. Para lá chegar, terá de primar pela diferença. O CEO da empresa explica o que distingue o Mycujoo dos demais, como o Facebook e Youtube, que também tem serviços de ‘streaming’.

"Somos uma plataforma democrática. Oferecemos a tecnologia, mas o nosso modelo de negócios é partilhar dados sobre utilizadores, conteúdos e receitas, coisa que o Facebook e o Youtube não fazem de forma bruta. Uma vez o conteúdo dentro dessas plataformas, os direitos passam a ser delas. Tudo o que fazemos à volta do conteúdo, informamos sempre o detentor do mesmo. Também nos destacamos pelo contexto, pela comunidade, como os gráficos, os 'highlights' ao intervalo, a interatividade, tudo o que se passa à volta do conteúdo, que permite ter uma experiência muito mais enriquecida", enfatiza.

"70 por cento dos consumidores que usam a plataforma são jogadores de futebol, todos à volta dos 35 anos. Passam, em média, sete minutos dentro da plataforma. No Facebook essa média é de cinco segundos", complementa.

Um telemóvel, internet 4G, um tripé e um adaptador e o seu clube está nos quatro cantos do mundo

Na transmissão de um evento desportivo, o Mycujoo não gasta um cêntimo. E o funcionamento é simples: os detentores dos direitos de imagem entram em contacto com a empresa, criam o seu canal onde transmitem os seus jogos em direto ou em diferido. Para tal basta terem um telemóvel ou câmara, ligação à internet, um tripé e um adaptador. A empresa criou uma aplicação para telemóveis de forma a facilitar as transmissões até porque 80 por cento dos utilizadores da plataforma assistem aos jogos no telemóvel. O Mycujoo apenas controla a parte da tecnologia, desde o momento da captação da imagem até a transmissão, melhorando o conteúdo em estúdio.

O modelo de negócio baseia-se em apresentar publicidade contextualizada à volta de conteúdos, utilizadores e comunidades. A partilha de receitas é 50-50, mas cada partilha é adaptada à medida que se renegoceia com os parceiros. As marcas acabam por patrocinar os golos, ou a apresentação dos resultados, o relógio, etc.

Transmissão de um jogo pelo Mycujoo
Transmissão de um jogo pelo Mycujoo

"Além do conteúdo em direto, oferecemos um estúdio semiautomático, que permite clicar num botão e ver as principais ações de um jogo como cartões, golos, jogadas, faltas, etc. À medida que o jogo avança, recolhemos ‘metadatas’ sobre o vídeo, associado a uma entidade, como jogadores e clubes ou seleções, e tudo isto é oferecido em tempo real. Criamos cerca de 40 'highlights' por jogo, o que permite criar conteúdo original à volta dos jogos em direto mas também ter uma base de dados de informação sobre o jogador e conteúdo a nível global que vai ajudar no futuro, para quem faz 'scouting' sobre jogadores, etc.", explica Pedro Presa.

"70 por cento dos consumidores que usam a plataforma são jogadores de futebol"

"Em termos técnicos, o mínimo que podemos aceitar para receber conteúdos é 0,8 gigabites de upload. Não controlamos a qualidade de internet no país e a forma como o conteúdo é gerido. Mas mesmo que o conteúdo tenha pouca qualidade, as pessoas dessa comunidade vão querer assistir a esse conteúdo lá. Para transformar esse conteúdo num 'widget' global, o mesmo é curado em estúdio, ou seja, temos uma equipa que faz os melhores golos da semana, os momentos mais engraçados e isso permite-nos pegar no conteúdo, mesmo que tenha pouca qualidade, colocá-lo num contexto específico e terá uma abordagem diferente", diz-nos Pedro, antes de dar um exemplo.

"Esta semana lançámos o Golo da Jornada da Oceania Champions League, onde temos exclusividade, e é um golo horrível que teve cerca de dois milhões de visualizações no Instagram num dia. Ou seja, nem é tanto a qualidade do conteúdo, mas sim o momento, a forma como fazes esse conteúdo, com música ambiente etc. O importante é captar o momento e chegar ao consumidor”, frisa.

Do Mycujoo para o profissionalismo: A épica viagem do Ronaldo do Butão até a Índia

Foi através do Mycujoo que Chencho Gyeltshen se revelou ao Mundo. Conhecido como o Cristiano Ronaldo do Butão, este avançado de 22 anos, atualmente no NEROCA, da Índia, deu nas vistas quando esta 'start up' portuguesa começou a passar os jogos da Liga do Butão, que tiveram transmissão televisiva pela primeira vez, depois de um protocolo com a Asian Football Confederation, assinado em 2016.

Chencho Gyeltshen confirmou os créditos, com uma habilidade técnica e faro de golo que o destacava dos demais, no Thimphu City. Os indianos do Minerva Punjab não perderam tempo e ofereceram-lhe um contrato profissional onde marcou sete golos em 18 jogos em 2017/2018. Mais tarde pôde brilhar ao serviço da seleção, onde leva nove golos marcados em 32 internacionalizações pela 186.ª melhor seleção do Mundo.

Como o Mycujoo ajudou o Olivais e Moscavide no mercado de transferências

Em Portugal, foi o Olivais e Moscavide a tirar partido dos recursos da tecnologia para colocar jogadores no mercado. As transmissões dos seus jogos (joga na Primeira Divisão da Associação de Futebol de Lisboa) na plataforma ajudaram a colocar alguns jogadores no Campeonato de Portugal. Foram os casos de Walid Labbaq, marroquino de 20 anos, que se mudou para o Vilafranquense na época 2017/2018 e de Omar Youssef, egípcio de 20 anos, que foi vendido ao Olímpico do Montijo neste mercado de inverno.

A transmissão dos jogos da equipa principal permitiu ao Olivais e Moscavide alargar o número de equipas nos escalões de formação. Na próxima época, o clube vai passar a transmitir também os encontros dos escalões jovens no Mycujoo.

O futuro é hoje

O crescimento exponencial da plataforma deixa o Mycujoo numa posição privilegiada no mundo do 'livestreaming'. De uma empresa que só servia conteúdo à volta dos 90 minutos de um jogo de futebol, a 'startup' portuguesa alargou horizontes para permitir que as comunidades possam interagir com a plataforma, criando conteúdo, principalmente no mobile, de onde vêm 80 por cento dos acessos. Um crescimento tão rápido que nunca passou pela cabeça de Pedro e João Presa. Recentemente a empresa conseguiu um investimento de 3,7 milhões de euros por parte de um investidor suíço para investir no melhoramento da plataforma.

O crescimento de plataformas de transmissão de jogos e a desaceleração de crescimento das agências detentoras dos direitos de transmissão televisiva dos grandes eventos desportivos é uma boa notícia para esta empresa com 'dedo' português. O grupo de media francês Lagardère já expressou publicamente o desejo de abrir mão dos direitos de transmissão que detém. Outras empresas deverão seguir-lhe as pisadas. Os conteúdos ‘premium’ como o Mundial de Futebol, a Copa América, o Europeu de Futebol, os Jogos Olímpicos ou a Liga dos Campeões, terão sempre espaço para ter distribuição nos grandes ‘media partners’, mas os outros conteúdos terão dificuldades.

80 por cento do conteúdo do Mycujoo é consumido via mobile
80 por cento do conteúdo do Mycujoo é consumido via mobile créditos: Mycujoo

"Daqui a uns anos a Premier League não vai conseguir vender os direitos de transmissão no Brasil, por exemplo, nem na Indonésia, pelo valor que vendem hoje em dia. Qual a comunidade que se vão aproximar para poder saber que consumidores vão conseguir atingir no Brasil? Nós sabemos que temos 10 milhões de jogadores no Brasil a transmitir diariamente na plataforma, que interagem diariamente connosco, sabemos que utilizadores gostam da Premier League na Indonésia, que tipo de clubes gostam, etc", garante.

"Os conteúdos que não são ‘premium’, como a Liga Portuguesa, e que fazem a base do futebol, nunca terão espaço nenhum, nunca vão conseguir vender em mercados asiáticos ou norte-americanos. Vão ter de basear a sua estratégia no mercado digital, na sua relação direta com o consumidor", diz-nos Pedro Presa, avançando que essa comunidade não poderá ser criada em plataformas como o Facebook ou Youtube.

"Mas é preciso fazer um trabalho árduo de criar a comunidade, e a única forma de o fazer é as pessoas do futebol e do desporto, de uma vez por todas, entenderem que não podem criar essa comunidade, colocando, de forma grátis, em plataformas de dados como Facebook e Youtube. Essas plataformas são importantes, mas para direcionar esses utilizadores para outras plataformas que sustentam esses conteúdos e que têm esses direitos", sublinha.

Pedro Presa dá o exemplo da Netflix para explicar que o caminho passa por aproveitar a grande comunidade de futebol existente no mundo. São uma comunidade de 450 milhões de jogadores, de acordo com dados da FIFA.

Os conteúdos que não são ‘premium’, como a Liga Portuguesa, e que fazem a base do futebol, nunca vão conseguir vender em mercados asiáticos ou norte-americanos. Vão ter de basear a sua estratégia no mercado digital, na sua relação direta com o consumidor"

"Se a Netflix faz 15 mil milhões de dólares por ano e tem pouco mais de 100 milhões de utilizadores pagantes, temos de acreditar que a comunidade do futebol é muito maior que a da Netflix. Se pensarmos na comunidade da Federação Portuguesa de Futebol e eles pensarem, com os clubes e com as Associações Regionais, em criar esta relação direta com esses consumidores, que são os atletas, e partir daí, passar para os pais, amigos, etc... Esse é o caminho, mas ele tem de ser feito de forma a que os direitos sejam protegidos e que os dados dos utilizadores sejam partilhados entre clubes e associações e federações. Esse é o papel que espero que o Mycujoo venha a desempenhar a nível global", desejou Pedro Presa.

Mycujoo.tv em números:

2015
- Em março havia três clubes na plataforma, mas terminou o ano com 30 emblemas, em quatro países, num total de 90 jogos em directo.

2016
- Mycujoo com 132 canais de 22 países diferentes no final do ano
- 928 jogos transmitidos em direto

2017
- Transmitidos 4.400 jogos em directo de 2.250 clubes de futebol em 62 países diferentes.
- 35 milhões de visualizações em vídeos no Mycujoo.

2018
- O Mycujoo estava presente em 100 países nos 5 continentes.
- Foram transmitidos no mycujoo 12 mil jogos em directo.

A empresa tem parcerias com mais de 120 clubes federações e associações regionais e mais de 500 clubes. Transmite jogos de mais de 105 países, das seis confederações continentais, num total de mais de 700 competições.  Brasil, Colômbia, Índia, Indonésia, Japão, Malásia, Portugal, Tailândia, Estados Unidos da América e Vietname são os principais mercados.

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