"Já detetámos casos em que os 22 jogadores de campo e o árbitro estavam envolvidos no esquema de viciação do resultado de um determinado jogo”. Isto foi revelado por Tom Mace, diretor de operações de integridade da Sportsradar.

Esta é a empresa contratada pela FPF para garantir a credibilidade das competições nacionais, de forma a que não haja resultados combinados e apostas ilegais, sendo líder mundial no combate à fraude e ao ‘match fixing’.

O londrino de 35 anos revela que estes casos são “excecionais”, mas a regra não é menos preocupante.

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"Os alvos principais dos ‘fixers’ [pessoas que propõe a viciação de resultados] são os guarda-redes e os defesas, aqueles que mais facilmente podem garantir a influência direta no resultado, e os casos mais correntes envolvem um mínimo de 3 ou 4 jogadores. Quantos mais jogadores envolvidos, mais provável é que o resultado final seja aquele que os ‘fixers’ pretendem, existindo até uma espécie de classificação que é partilhada com os respetivos ‘clientes’ e que vai de 1 (o resultado combinado tem poucas probabilidades de acontecer) até 5 (o resultado é praticamente garantido). Ainda assim, cerca de 25% das tentativas de viciação de resultados no futebol falham. É um desporto que envolve muitos fatores aleatórios. Por regra, os jogadores são abordados para perderem, mas o resultado também depende da capacidade para a equipa adversária ganhar, o que nem sempre acontece”, revela Tom Mace, em declarações ao jornal O Jogo.

A ligação entre a FPF e a Sportsradar iniciou-se em 2009, com a monitorização da I e II Ligas, assim como da Taça de Portugal, estendendo-se atualmente ao Campeonato de Portugal, Taça da Liga de Futsal e à Liga Revelação.

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O valor anual do mercado das apostas das competições portuguesas movimentado a nível global atinge os 12 mil milhões de euros, sendo que os jogos da I Liga movimentam mais de 8 mil milhões de euros com cada encontro a valer mais de 27 milhões de euros.

"A popularidade das competições portuguesas é uma preocupação. Ocupam a sexta ou sétima posição em termos de popularidade entre os apostadores a nível global e movimentam valores que as tornam interessantes para os ‘fixers’”, explica Tom Mace, referindo que “se o valor for muito baixo, o que acontece com competições menos credíveis, qualquer movimentação mais radical faz disparar os sistemas de alerta”.

A Sportsradar não quis revelar o número de jogos suspeitos detetados nas competições portuguesas, mas adiantou que, “desde 2008, quando o Sistema de Deteção de Fraudes (SDF) da Sportsradar foi implementado, um total de 4 352 jogos foram manipulados em todo o mundo, sendo que desses, mais de 90% aconteceram em jogos de futebol e o fenómeno tem vindo a crescer”, revela o jornal.

Rute Soares, que integra o departamento responsável desta área na FPF, sublinhou a importância do trabalho realizado no combate à viciação de resultados.

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“A atuação da Federação Portuguesa de Futebol faz a dois níveis: o da regulamentação, com introdução nos regulamentos de normas que preveem sanções específicas para os agentes desportivos envolvidos em situações de ‘match-fixing’ e o da prevenção, que passa por ações de formação junto de todos os clubes da I e II Ligas, mas também nas divisões inferiores".

Já João Oliveira, do Sindicato dos Jogadores de Futebol, refere que este flagelo é uma "preocupação central”: "O Sindicato tem uma política de tolerância zero em relação a este tipo de situações, mas será sempre intransigente na defesa da honra dos jogadores, demasiada vezes alvo de acusações falsas”.

O Skenderbeu, que vai ficar 10 anos excluído das competições europeias de futebol depois de ter sido investigado na viciação de resultados, apelidou o castigo imposto pela UEFA de “prejudicial e unilateral” e revelou que vai recorrer da decisão para o Tribunal Federal da Suíça.

Esta foi a maior pena aplicada a um clube devido a resultados combinados, após a rejeição do recurso dos albaneses pelo Tribunal Arbitral do Desporto (TAS).

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